Venezuela

Uma linha de vida sobre o Amazonas

Voamos com o Dornier 228 da Aviação Militar venezuelana, percorrendo a Amazônia para conhecer como são feitas as missões de apoio às comunidades indígenas.

Por: Santiago Rivas

A América Latina ainda possui muitas áreas onde o avião é o único método para chegar a tempo, salvar vidas e prestar assistência quando necessário, das vastas estepes da Patagônia à imensa floresta amazônica, incluindo montanhas e desertos. Soma-se a isso a escassa infraestrutura com pistas curtas, de terra, em condições climáticas às vezes extremas onde poucas aeronaves podem operar com segurança.

Na entrada da Amazônia venezuelana, Puerto Ayacucho, é a sede do Grupo de Transporte No. 9 da Aviação Militar Bolivariana da Venezuela.

A unidade foi criada em 2006 com quatro Cessna 208 Grand Caravan e treze Cessna 206 para auxiliar pequenas comunidades indígenas de Pemones (no estado de Bolívar) e Yanomami (no estado do Amazonas) que, pouco visíveis a partir do ar, há séculos eles habitaram a região.

No entanto, como explicou o comandante da unidade, Coronel César Padrón, “em 2012 começamos a pensar que precisávamos de um avião com mais capacidade e eficiência para suprir as necessidades da região. Nós pensamos num bimotor, por questões de segurança e pela sua capacidade em si ser mais elevada. Em outubro de 2012 a RUAG me contatou oferecendo o Dornier 228. Eu enviei uma equipe técnica e, quando eles voltaram da Alemanha, logo me disseram: ‘Coronel, você precisa conhecer esse avião’. Em dezembro nós o avaliamos na Alemanha e recomendamos o Dornier”.

Os dois primeiros Do228-212 entregue pela RUAG no início de 2014 já impactaram num enorme salto em termos de capacidade da unidade, mas a chegada do primeiro Dornier 228 (anteriormente designada Do228NG), novo, em 26 de novembro daquele ano, proporcionou aos pilotos uma grande melhoria em suas missões, facilitando a operação graças a sua aviônica moderna e seu cockpit digital (glass cockpit).

Para as comunidades, também representou um salto importante, permitindo melhor integração com o resto da região. Antes, sair de Parima B implicava numa viagem de uma semana até La Esmeralda, de onde podiam utilizar um avião ou continuar viajando através do Rio Orinoco para Puerto Ayacucho.

Os aviões reforçaram significativamente as capacidades da unidade, cuja missão é uma das mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais recompensadoras de todas as que são conduzidas pela Força Aérea daquele país. Na inóspita floresta Amazônica, que cobre todo o sul da Venezuela, os aviões são o elo vital entre a civilização e as comunidades indígenas.

De Puerto Ayacucho viajamos para a comunidade de San Juan de Manapiare, um voo de 35 minutos onde apenas se pode ver a selva, rios e montanhas. Para muitos, o avião significa a diferença entre a vida e a morte, já que neste voo transportamos uma mulher indígena que precisava de evacuação urgente após ser mordida por uma cobra.

Também é uma grande diferença na vida das crianças das comunidades, que viajam para a cidade para estudar. O serviço oferecido pelo grupo é gratuito, priorizando as evacuações de saúde, em seguida os estudantes, médicos, professores e outros funcionários, carga e, finalmente, a transferência de pessoas que precisam viajar por motivos pessoais.

 

O Dornier 228 não só dobrou a capacidade de transporte de cargas ou pessoas num único voo, mas também, com seus mais de 200 nós (370km/h) de velocidade de cruzeiro, reduziu significativamente o tempo que antes era gasto por outro modelo de avião.

A tudo isso soma-se ainda a capacidade STOL que, de acordo com o Capitão Adrian Escalona, ​​um dos pilotos da unidade, permitiu chegar em pistas onde só pousavam os Cessna 206 do Grupo. Os militares acreditam que mesmo assim eles ainda não exploraram todo o potencial do avião da RUAG.

Após voar mais de 500km sobre a floresta, chegamos a Parima B, na fronteira com o Brasil, onde os Yanomami ainda preservam todos os seus costumes ancestrais. Até a chegada do avião, os membros da comunidade tinham que viajar quase uma semana para a cidade de La Esmeralda a pé e por rio e, de lá, pegar um avião para deixar a selva. A pista, extremamente curta e no meio de um vale, foi um grande desafio, mas os pilotos foram capazes de decolar com plena carga sem grandes problemas.

Segundo Eliseo Silva, a mais alta autoridade do povo Yanomami e capitão da comunidade Parima B, “todas as comunidades estão felizes com o avião. Antes nós não tínhamos essa via de transporte para chegar às cidades. Era difícil”.

Quase todas as pistas em que operam são de terra, curtas e durante grande parte do ano trabalha-se com altas temperaturas, ainda que esta não tenha sido uma limitação. Em relação à velocidade, o capitão Escalona, ​​destaca que o avião “é muito mais rápido. Temos um tempo de reação para chegar às comunidades e voltar ou continuar para outros lugares com equipamentos mais especializados muito mais rápido. O avião tem uma potência incrível”.

Versatilidade

O Major Elio Hernandez, um dos pilotos mais experientes do Dornier 228, também salienta que, embora seja maior do que os outros aviões da frota da unidade, o turboélice bimotor opera nas mesmas pistas e é estável o suficiente para manobrar em velocidades baixas, mesmo em plena carga. “Isso torna a operação na selva muito mais fácil. Tive a oportunidade de voar para o exterior. O avião é igual a qualquer outro que não opera num ambiente de selva. Ele é versátil, pois pousa em pistas não preparadas, mas é muito mais fácil quando a pista é de asfalto”, diz.

Com relação às melhorias fornecidas pelo Dornier 228, como o seu novo “glass cockpit”, Escalona enfatiza que “os aviônicos são de última geração, muito completos. Fiz um voo internacional para as Ilhas Virgens e o sistema carregou todas as rotas internacionais do mundo. É uma ajuda incrível na navegação”.

Em relação à manutenção, o 1º Tenente Ángel Márquez enfatiza que “tem muita eletrônica, sensores suficientes, é muito completo. A parte dos motores é simples, os são muito bons. Na parte da aviônica, é muito completo”.

O Coronel Padrón conclui afirmando que, “em quase dois anos de operação, as três aeronaves fizeram coisas impressionantes”.

 

 

 

 

Aero Latam

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário